Genérico do Viagra é usado no tratamento de hipertensão arterial pulmonar e está em falta nas farmácias de alto custo desde o início do ano

Nesta semana, um deputado federal questionou o Ministério da Defesa sobre a compra de 35.320 comprimidos de Viagra para atender às Forças Armadas. Segundo a pasta, os medicamentos foram adquiridos para tratar de casos de hipertensão arterial pulmonar (HAP), uma doença rara.

Enquanto isso, na capital do país, pacientes com hipertensão arterial pulmonar vivem drama para tratar a doença, devido à falta de medicamentos nas farmácias de alto custo da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) desde o início deste ano. Um dos remédios usados no tratamento é sildenafila, um genérico do Viagra, com dosagem de 20 mg.

O Ministério da Defesa alega que a compra foi feita para tratar HAP, mas, nos processos de compra, o medicamento aparece nas dosagens de 25 mg e 50 mg, indicadas para casos de disfunção erétil. A maior remessa, 28.320 comprimidos, é destinada à Marinha. Os remédios também atendem ao Exército, com 5 mil comprimidos, e à Aeronáutica, com 2 mil comprimidos.

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Flávia Lima, presidente Associação Brasileira de Apoio à Família com Hipertensão Pulmonar e Doenças Correlatas (Abraf), conta que há desabastecimento de três medicamentos usados no tratamento da HAP: sildenafila, bosentana e iloprost.

“É uma doença progressiva e grave. Os pacientes estão sem todos os medicamentos para hipertensão arterial pulmonar. O sildenafila e o bosentana estão em falta nas farmácias de alto custo desde janeiro. E o iloprost é adquirido na Farmácia Judicial, não vende em farmácia normal. Em plena capital do país, os pacientes estão desassistidos”, comenta.

Disponibilidade na rede privada

Segundo Verônica Amado, pneumologista e coordenadora do ambulatório de hipertensão pulmonar do Hospital Universitário de Brasília (HUB), o sildenafila nas dosagens acima de 20 mg e o bosentana podem ser encontrados em farmácias da rede privada. Porém, além de ter que tomar um medicamento com a dose diferente, o paciente acaba tendo custos elevados no mês.

“O Ministério da Saúde fornece apenas uma das medicações para os pacientes: sildenafila ou bosentana. Durante anos, a Secretaria de Saúde do DF conseguiu fornecer os dois, o que deu uma qualidade muito maior para os pacientes, pois podíamos combinar medicamentos. Apesar disso, nunca tivemos fornecimento regular, faltava um ou outro por uns dois meses”, diz a médica. “Agora, os pacientes que recebem os fármacos da secretaria estão sem os dois. É uma situação muito caótica e crítica”, completa.

painel InfoSaúde-DF, da Secretaria de Saúde, mostra que há estoque de sildenafila apenas em farmácias do Ministério da Saúde. Unidades especializadas da SES-DF não têm os medicamentos para o tratamento da HAP. Como o usuário só pode retirar a medicação na instituição que consta em seu cadastro, quem depende das farmácias de alto custo da Secretaria de Saúde do DF não consegue ter acesso aos remédios pelo SUS.

Drama

A moradora do Paranoá Renata Pain, 39 anos, foi diagnosticada com hipertensão arterial pulmonar há oito anos e faz acompanhamento no HUB. “Eu sentia muito cansaço e falta de ar, e desmaiava aos mínimos esforços, como subir escada”, conta.

Hoje, ela faz uso do sildenafila, do bosentana e do iloprost – os três medicamentos que estão em falta nas farmácias de alto custo do DF. “O iloprost está em falta há dois meses. Em relação aos outros dois, há quatro meses que não consigo pegar na farmácia da 102 Sul. Falam para a gente ficar ligando ou entrando no site para verificar o estoque, mas não tem previsão”, narra.

Renata é aposentada por invalidez há cinco anos por conta da doença. “Uso oxigênio 24 horas. Mal consigo andar, imagine trabalhar”, diz. Ela usa uma caixa de sildenafila por dia e conta que, na promoção, consegue comprar a caixa do remédio com quatro comprimidos por R$ 10, o que implica um gasto de R$ 300 por mês.

“Eu acho um absurdo, porque eu não acredito que a Marinha toda está com hipertensão pulmonar, por exemplo. É uma doença tão rara e tenho certeza que eles não conseguiriam trabalhar pesado sentindo o que a gente sente. A maioria dos pacientes é aposentada ou assegurada pela previdência, como é meu caso. Não está fácil”, enfatiza.

Doença rara

A incidência da HAP é de 1 caso para cada 250 mil habitantes, e a maioria dos pacientes é jovem, entre 20 e 40 anos, e mulher. Ela é causada por histórico familiar, uso de drogas ou diagnóstico prévio de outras patologias.

A doença não tem cura. Os principais sintomas são falta de ar e cansaço aos esforços, como caminhar e subir escadas; distensão abdominal; desmaios; fadiga; edema de membros inferiores.

“É considerada uma doença rara. Em caso de suspeita, a pessoa deve encaminhar-se para os centros de referência para receber o diagnóstico correto. É importante que o manejo desses pacientes seja adequado, quando aumentar a dose, quando mudar a medicação. Por isso, a gente preconiza que eles devem ser atendidos nos centros de referências. Aqui em Brasília, por exemplo, temos o HUB, o Hospital de Base e o Hran”, ressalta a pneumologista Verônica Amado.

O que diz a Secretaria de Saúde do DF

Procurada, a Secretaria de Saúde disse que possui processo de aquisição em andamento para todos os medicamentos citados. “Contudo, alguns processos sofreram cancelamento da nota de empenho, em função do atraso, ou até mesmo da falta de entrega do medicamento por parte do fornecedor, conforme prazos de contratação e execução vigentes nos termos firmados”, informou a pasta.

Veja a situação de cada medicamento, conforme divulgado pela SES-DF:

  • Bosetana 125 mg – Encontra-se em falta momentânea pelo laboratório fabricante;
  • Bosetana 62,5 mg – Pedido de compra emitido, aguardando entrega do fornecedor;
  • Sildenafila 20 mg – Pedido de compra emitido, aguardando entrega do fornecedor;
  • Sildenafila 50 mg – Pedido de compra emitido, aguardando entrega do fornecedor.
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